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Marcio Pires

Jornalismo, Análise Política e Opinião

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Fazenda reduz projeção de crescimento do PIB para 2% em 2026 e 2,3% em 2027

Fazenda reduz a projeção de crescimento do PIB para 2% em 2026 e 2,3% em 2027, citando juros, crédito e demanda doméstica.
Fazenda reduz projeção de crescimento do PIB para 2% em 2026 e 2,3% em 2027

O Ministério da Fazenda reduziu a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026, de 2,3% para 2%. Para 2027, a estimativa também foi revisada para baixo, de 2,5% para 2,3%. As novas previsões foram divulgadas nesta terça-feira (22) no Boletim Macrofiscal da Secretaria de Política Econômica (SPE).

A revisão reflete principalmente os efeitos dos juros ainda restritivos sobre a atividade econômica, com impacto mais forte nos setores de serviços e indústria. A equipe econômica também passou a considerar uma trajetória de flexibilização monetária marginalmente mais gradual do que a prevista anteriormente.

O documento também reduziu a estimativa de inflação para 2026, de 5,1% para 4,9%, mas o índice ainda ficaria acima do teto da meta, de 4,5%. Para 2027, a previsão do IPCA subiu de 3,6% para 3,8%. Os dados e as justificativas foram apresentados pela SPE no relatório que orienta os parâmetros do Orçamento da União.

Serviços e indústria concentram a piora

A revisão do crescimento para 2026 foi concentrada nos setores mais sensíveis às condições de crédito e ao comportamento da demanda doméstica. A projeção para os serviços caiu de 2,4% para 1,8%, enquanto a estimativa para a indústria recuou de 2,1% para 1,7%.

Na agropecuária, a Fazenda elevou a previsão de crescimento de 1,8% para 2,8%. A melhora esperada para o setor, no entanto, compensou apenas parcialmente a piora nas estimativas para serviços e indústria, resultando na redução da projeção para o PIB como um todo.

Segundo a SPE, a revisão dos serviços considera o carrego mais fraco deixado pelo primeiro semestre e a transmissão, com defasagem, dos efeitos da política monetária sobre a demanda doméstica. O termo carrego indica a influência do desempenho já registrado sobre o resultado esperado para o restante do período.

Outro fator apontado no boletim é o nível de comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas. Embora o endividamento permaneça estável em relação à renda, o comprometimento com o serviço da dívida atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre. Para a secretaria, essa situação limita a conversão do avanço da massa de rendimentos em consumo.

Inflação continua acima do teto da meta em 2026

A projeção de 4,9% para o IPCA em 2026 ficou abaixo da estimativa anterior, de 5,1%. A revisão incorporou os resultados do índice até julho, que ficaram parcialmente abaixo do previsto, principalmente nos preços dos alimentos consumidos nos domicílios e, em menor medida, dos serviços.

A Fazenda também considerou a melhora das expectativas de inflação e a manutenção da taxa Selic em nível contracionista. Esse patamar de juros desestimula a atividade econômica ao encarecer o crédito e reduzir o ritmo do consumo e dos investimentos.

A meta contínua de inflação estabelecida para o país é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O limite superior é, portanto, de 4,5%. Mesmo com a redução da previsão, a estimativa da Fazenda para 2026 permanece acima desse teto.

Para 2027, a elevação da projeção do IPCA foi associada, entre outros fatores, aos possíveis efeitos de um El Niño mais intenso sobre a produção agrícola. De acordo com a SPE, o fenômeno pode afetar inicialmente os preços de grãos e, posteriormente, pressionar outros alimentos, incluindo carnes.

Juros devem afetar crédito, consumo e investimentos

O boletim revisou a avaliação sobre o ritmo de transmissão da política monetária para a economia. A expectativa é que eventuais cortes da Selic apareçam gradualmente nas condições de crédito, no consumo e nos investimentos.

Segundo o documento, a queda da Selic iniciada em 2026 tende a ser transmitida de forma gradual ao crédito e à demanda doméstica. Os efeitos positivos seriam mais perceptíveis em setores sensíveis ao ciclo econômico, como a indústria de transformação, a construção e os serviços mais cíclicos.

A secretaria também prevê estímulo ao investimento à medida que o custo de capital diminua. Ao mesmo tempo, a avaliação considera que a flexibilização monetária ocorrerá em ritmo marginalmente mais gradual do que o previsto anteriormente, o que contribui para a revisão das projeções de crescimento.

A Fazenda destacou ainda que a desaceleração da atividade econômica é esperada no segundo semestre de 2026. O desempenho do consumo deverá continuar condicionado tanto pelas condições de crédito quanto pelo nível de comprometimento da renda das famílias com as dívidas.

Riscos incluem clima, petróleo e cenário externo

Além dos juros e da inflação, o Boletim Macrofiscal aponta riscos que podem alterar as projeções. Entre eles estão os efeitos do El Niño sobre a produção e os preços dos alimentos, o comportamento do preço do petróleo e as condições de crédito para famílias e empresas.

O documento também cita o ritmo de recuperação da demanda doméstica, o desempenho das exportações e da indústria extrativa. Conflitos internacionais podem aumentar a volatilidade dos preços de energia e produzir efeitos sobre outras cadeias produtivas.

As estimativas divulgadas pela SPE serão utilizadas na elaboração e na atualização do Orçamento da União. Os números também servirão de referência para o Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas, que será divulgado na próxima quinta-feira (24) pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento.

O boletim reúne projeções para indicadores como PIB, IPCA e Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). As revisões permitem atualizar os parâmetros usados nas estimativas de receitas, despesas e demais componentes do planejamento fiscal conforme a evolução do cenário econômico.